INTRODUÇÃO
A
litíase do trato urinário é um doença conhecida
pela humanidade há vários séculos. Cálculos em bexiga
foram descobertos em múmias do Egito e haviam sido registradas em papiros
pelos babilônicos e egípcios. Entretanto, apesar do seu conhecimento,
seu tratamento clínico ou cirúrgico foi anedótico até
recentemente. Não muito longínquo foi o tempo em que os cirurgiões
barbeiros realizavam suas intervenções com tal morbidade e mortalidade
(para não falar no sofrimento gerado), que tinham necessidade de, freqüentemente,
abandonar as cidades/ vilas de seu exercício profissional. Apenas recentemente,
há cerca de 30 anos, que com o importante avanço da medicina,
foi possível iniciar o entendimento mais detalhado das causas e da físico-química
da litogênese. Apesar deste avanço no entendimento fisiopatológico
da formação dos cálculos da via urinária, o atendimento
médico se restringia à urgência, para o alívio da
cólica ou do processo infeccioso, quando associado, e o preparo para
sua retirada cirúrgica, quando este fosse de um tamanho que se julgasse
de difícil eliminação espontânea.
Durante os últimos
20 anos, alguns dos mais notáveis avanços na medicina ocorreram
no estudo e tratamento do cálculo urinário. Muitos conhecimentos
físico-químicos a respeito da cristalização dos
cálculos foram conhecidos. Muitos
distúrbios metabólicos e ambientais, levando ou contribuindo para
a formação do cálculo, têm sido identificados. O
diagnóstico da causa da doença calculosa é possível
em mais de 95% dos pacientes. A formação dos cálculos pode
ser impedida ou retardada em muitos pacientes com cálculos recorrentes,
com a utilização de uma variedade de programas de tratamento.
Com a introdução da nefrolitotripsia percutânea e a litotripsia
extracorpórea com ondas de choque (LECO), muitos cálculos podem
ser removidos com grande facilidade e menor morbidade, frequentemente dispensando
cirurgia.
A doença
calculosa não é uma entidade homogênea, mas o resultado
de várias causas, com diferentes apresentações. Além
disso, anormalidades severas ou fatores de risco estão normalmente presentes
no mesmo paciente. Desta forma, procura-se na investigação dos
hábitos pessoais, das características alimentares e antecedentes
familiares, diagnosticar esses fatores.
Assim, uma área
do conhecimento médico que até há pouco tempo era desprezada,
limitado-se ao tratamento imediato, está florescendo e sendo contaminada
por vários setores de investigação como a química,
a física, a biologia celular e molecular, dando um novo enfoque no entendimento
da litíase renal. Entretanto, apesar deste avanço na sua investigação
fisiopatológica, ainda não temos suficientes estudos de epidemiologia
clínica que avaliem a incorporação dos novos conhecimentos
e tratamentos na prática medica. Entende-se esta dificuldade pela necessidade
de se realizar estudos prospectivos em humanos, que apresentem características
semelhantes da doença litiásica, em condições ambientais
parecidas e por longo tempo. Desta maneira, a resultante desse substancial avanço
na área da litíase do trato urinário ainda necessita de
uma avaliação futura.